Com a expiração da patente da liraglutida, muitos esperavam uma queda expressiva de preço. O que se viu, na prática, foi diferente.
A pergunta que surge agora é direta: Quando a patente do Mounjaro cair, o preço vai despencar?
Para responder, é fundamental entender o que aconteceu com a liraglutida.
A liraglutida, agonista de GLP-1 de aplicação diária, foi comercializada por anos com exclusividade pela Novo Nordisk sob a marca Saxenda (obesidade) e Victoza (diabetes).
Com o vencimento da patente em diversos países, surgiram versões similares e genéricos.
A expectativa era clara:
- Maior concorrência
- Redução expressiva de preço
- Ampliação de acesso
O que ocorreu foi mais complexo.
Mesmo com novos fabricantes, o preço não caiu proporcionalmente ao que se observa em medicamentos orais tradicionais. Por quê?
- Biológicos e peptídeos não seguem a mesma lógica dos genéricos clássicos: Liraglutida é um peptídeo complexo, produzido por biotecnologia. Não se trata de uma molécula sintética simples, como metformina ou losartana. Isso implica:
- Cadeia produtiva sofisticada
- Alto custo de fabricação
- Exigências regulatórias mais rígidas
- Necessidade de estudos de comparabilidade
O resultado: mesmo após a queda da patente, a barreira de entrada continua alta.
Esse mesmo raciocínio se aplica à tirzepatida.
- O fator caneta injetável: Outro ponto relevante é o dispositivo. O custo não está apenas na molécula. Inclui:
- Sistema de aplicação
- Tecnologia de estabilidade
- Logística de cadeia fria
- Registro sanitário do conjunto fármaco + dispositivo
A caneta representa parte significativa do custo final.
- Demanda explosiva mantém preços elevados: A obesidade se tornou uma das principais demandas de saúde pública global. Medicamentos como: Ozempic, Wegovy e Mounjaro apresentaram crescimento exponencial de procura. Quando a demanda é maior que a oferta, o mercado não pressiona para baixo.
A liraglutida mostrou exatamente isso: mesmo após a perda de exclusividade, a precificação permaneceu relativamente elevada em muitos mercados.
E o Mounjaro? O que esperar no futuro?
O Mounjaro contém tirzepatida, um agonista duplo de GIP e GLP-1, desenvolvido pela Eli Lilly. Alguns pontos técnicos relevantes:
- É molécula biotecnológica complexa
- Produção em larga escala ainda limitada
- Forte proteção patentária ativa
- Expansão contínua de indicações
Quando a patente cair (o que ainda deve levar anos), é improvável que o preço:
- Caia abruptamente
- Se torne comparável a medicamentos orais convencionais
- Fique imediatamente acessível ao SUS sem negociação robusta
A experiência da liraglutida sugere que a queda tende a ser gradual e parcial, não abrupta. Além dos aspectos burocráticos. As agências regulatórias, como a Anvisa, exigem dados de comparabilidade, estabilidade, imunogenicidade e segurança para biossimilares. Isso prolonga o tempo até competição real no mercado.
O que a Liraglutida ensina
A experiência prática mostra que:
- Patente vencida não significa medicamento barato
- Biológicos seguem dinâmica diferente de genéricos clássicos
- Demanda global sustenta preço
- Dispositivo de aplicação pesa no custo
- Acesso depende de políticas públicas e negociação institucional
Conclusão
Se a história da liraglutida serve como referência, o futuro da tirzepatida tende a seguir lógica semelhante.
Mesmo após o fim da exclusividade, o preço pode cair mas dificilmente despencará!
A democratização dependerá mais de políticas de incorporação e negociação do que apenas do calendário de patentes.
A discussão real não é apenas “quando a patente cai”, mas como o sistema de saúde negocia acesso a terapias biotecnológicas de alto impacto metabólico.
Esse é o aprendizado central que a liraglutida deixa — e que ajuda a entender o que esperar do Mounjaro nos próximos anos.




